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Jardim de Inverno - Pablo Neruda

Este livro foi publicado postumamente. Escrito entre os anos 1971 e 1973 demarca um período em que Pablo Neruda despedia-se da vida e do amor.

Jardim de Inverno é um livro outonal e lírico com tom de despedida. O que pode ser percebido no poema ” O Egoísta” onde o autor diz “Eu não sou o culpado/ de ter fugido ou de ter acudido:/ Não me pôde gastar a desventura!/ A própria sorte pode ser amarga/ à força de beijá-la cada dia/ e não tem caminho para livrar-se senão a morte”, essa passagen do poema significa que o poeta se entregava à sua vida, às cobranças do dia-a-dia. No trecho de “Modestamente”, ” Temos que conhecer certas virtudes normais/ vestimentas de cada dia/ que de tanto ser vistas parecem invisíveis/ e não nos entregamos ao excepcional/ ao engole-fogo ou à mulher-aranha”, ele diz que apesar da rotina acelerada e de trabalho, ele sentia que tinha tempo para si mesmo e que o que havia vivido tinha sido bom e intransferível, que apesar de não ter podido fazer o máximo por todos, a vida preservada nas pequenas coisas dava significado à existência também.

No poema “O Oceano Chama” , o autor diz ” não vou ao mar por este amplo verão/ coberto de calor, não vou mais longe/ destes muros, das portas e das gretas/ que circundam vidas e a minha vida.” e ” Assim foi, assim parece que assim foi:/ mudam as vidas e o que vai morrendo/ não sabe que essa parte dessa vida/ essa nota maior, essa abundância/ de cólera e fulgor ficaram longe/ e te foram cegamente cortadas.” Neste trecho podemos ver claramente que o poeta Neruda sabe que está morrendo, que não pode mais vivenciar o que na vida é som, fúria e esplendor.

Pablo Neruda agradece por seu conhecimento da vida alcançado pelas viagens pelo mundo no poema ” Muchas Gracias (Muito Obrigado)”, o que podemos perceber no trecho “É preciso andar muito pelo mundo/ para constatar certas coisas/ e certas leis de sol azul/ o rumor central da dor/ a exatidão primaveril.”

E no último poema do livro Jardim de Inverno, ” A Estrela”, o autor demonstra não estar mais inconformado com a sua morte.

A Estrela

Bom, Eu já não voltei, já não padeço

de não voltar, a decisão da areia

e como parte da onda e de passagem,

a sílaba de sal, o piolho da água,

eu, soberano, escravo desta costa

submeti-me, me encadeei à minha rocha.

Não há vontade para nós que somos

fragmento do assombro

não tem saída para este retorno

para si mesmo, a pedra de si mesmo,

já não existem mais estrelas que o mar.

(Pablo Neruda - Jardim de Inverno)


           13 de setembro de 2009 - PASSEIO PÚBLICO CURITIBA

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